20 setembro 2017

Programas Rádio Sim - semana 18 Setembro 2017

Todos os programas, sempre com Helena Almeida e Inês Carneiro, 

nas Giras e Discos, podem ouvir-se aqui (ou pelos links que estão em baixo).


Indicativo do programa:








- Música e letra: Margarida Fonseca Santos; 
Arranjos, direcção musical, piano e voz: Francisco Cardoso
- Histórias de Cantar CD - Conta Reconta

Horário na Rádio Sim - 17h45, todos os dias

Escritiva nº 24

Histórias da carochinha em 77 palavras
Quando eu era pequenina, ou melhor, desde que sou pequenina que demoro, em média, uns 2 minutos a adormecer. Ora isto para uns pais que incentivam a leitura é algo frustrante, porque nunca passavam da 2ª página dos contos. Vendo que eu nunca chegava ao final das histórias e que pedia sempre (mas mesmo sempre) para começarem a história desde o princípio, a minha mãe adotou uma estratégia: contar tudo no menor tempo possível, conseguindo assim que eu ouvisse tudinho antes mesmo de fechar a pestana. 

Como podem imaginar, só anos mais tarde percebi a quantidade de pormenores que havia em cada uma das histórias, mas no essencial a capuchinho salvava-se, a tartaruga ganhava a corrida e Cinderela acabava com o príncipe.

Pois bem, peguem numa história da vossa infância e contem-na em nada mais, nada menos do que 77 palavras. Eu escolhi esta:

Era uma vez 3 ursos, uma casinha, um bosque e uma menina armada em espertinha.
Andavam todos a passear, quando a menina se pôs a bisbilhotar.
Viu uma casa e decidiu entrar. Comeu, bebeu e adormeceu.
Dormiu, roncou até que se assustou com 3 ursos resmungões que lhe pediam explicações: queriam saber que história era aquela de entrar numa casa que não era dela.
Assustada, levantou-se a correr e fugiu disparada para onde ninguém a pudesse ver.
Paula Cristina Pessanha Isidoro, 36 anos, Salamanca
Escritiva nº 24 - mini histórias da infância

16 setembro 2017

Carla Silva - desafio nº 125

Como um tornado
Algo na forma como te debruçavas sobre a mesa tocou o meu coração. Sentindo-me impelida a chamar tua atenção, toquei no teu ombro.
Mas nunca imaginei que abalasses meu interior tão intensamente.
Igual a um pequeno tornado, entraste na minha vida. Sem aviso prévio, revoltando tudo à tua passagem. Muitas vezes pensei desistir, felizmente não o fiz.
Hoje, volvidos vinte anos, não imagino a minha vida sem segurar tua mão ou sem perder-me nos teus tristes olhos verdes.
Carla Silva, 43 anos, Barbacena, Elvas

Desafio nº 125 – tornado no jardim

Eurídice Rocha - desafio nº 23

Olhos nos olhos... valeu!
Leitão faz-me sempre lembrar o meu primeiro amor. Mais valia ter posto uma rolha de cortiça no coração, porque chafurdei o peito anos demais no chiqueiro.
Podeis não crer, mas triturou-me e esmagou-me no almofariz e sem especiarias… só com dor! Acreditei deixar de amar, como minha mãe.
30 anos depois pus o despertador a tocar para finalmente acordarAtirei-lhe com uma bola de ténis, sacudi-o como se de vespa se tratasse e encarnei um novo papel.
Eurídice Rocha, 51 anos, Coimbra

Desafio nº 23 – percurso de palavras obrigatório: leitão + rolha + almofariz + despertador + bola de ténis + vespa + papel

Laura Garcez - desafio nº 125

Petúnia e Malmequer
A Petúnia apaixonou-se pelo Cravo. Ouvia as ondas melodiosas da sua voz. Ele sempre indiferente!
Petúnia abandonou a dor, mudou de local. Giesta ajudou-a. O Vento Norte abanou fortemente o jardim, plantando a Petúnia ao lado da Giesta. Todos ficaram atarantados ― o cravo, surpreendido, calou-se.
Petúnia ressentiu-se, mas era melhor assim.
À frente de Petúnia, vivia Malmequer Silvestre, muito desanimado. Petúnia enterneceu-se, cobriu-se de doçura. Amou o Malmequer, tal como desejou que o Cravo a tivesse amado.
Laura Garcez, 44 anos, Lisboa

Desafio nº 125 – tornado no jardim

Eurídice Rocha - desafio nº 22

Cadáver à vista
Sentada comodamente fiz que a curiosidade fosse uma lupa. Uma. Fosse curiosidade a que fiz… comodamente sentada.
Menino anuncia bisbilhotice de olho aberto e voz vibrante. Voz e aberto. Olho de bisbilhotice? Anuncia menino!
Vala, aquela, cheia de estrume humano. Estrume de cheia… aquela vala.
Alma e corpo de recém-nascido assassinado… recém-nascido de corpo e alma.
Saiu arrancado, podre, ao lixo. Ao podre arrancado saiu.
Dor maldita quão condena corpo de mulher de corpo. Condena quão maldita?
Eurídice Rocha, 51 anos, Coimbra

Desafio nº 22 – frase simétrica

Fernanda Costa - desafio RS nº 23

Nascer do dia
Liana levantava o pé, puxava a porta, um sol incandescente beijava-lhe o rosto ― desânimo esquecido, um dia cheio de bênçãos estava à sua frente! Organizava os mais valiosos bens, físicos e espirituais, saía de casa com alegria! Os queridos alunos mereciam, mimavam-na, adoravam-na!
No caminho encontrava D. Josefa, mulher ribatejana, sorriso largo, palavras fáceis ― servia-lhe um café com sabor ao longínquo "Pierre Loti".
Freneticamente, o dia começava vestido de sonho, para que as nódoas não o sujassem.
Fernanda Costa, 55 anos, Alcobaça

Desafio RS nº 23 – história de mulheres

Eurídice Rocha - desafio nº 125

Desangolana no deslubango
Tantas horas a voar…  
pôr pés de chão?
Corpos de meninos surgiam entre plásticos. Poeiras numa luta infindável pela sobrevivência. Não lhes sorriam estrelas no olhar. Não lhes rasgavam sonhos no coração… tipo braços mecânicos, secos, arrastavam lixo com garras a iluminar ponta de comida fétida, maquinalmente engolida.
Filhos da nossa terra destratados!
“Quantos pobres são precisos para fazer um rico?” qual tornado jardim? qual justiça dos homens na secura da fome dos olhos de uma criança?
Eurídice Rocha, 51 anos, Coimbra

Desafio nº 125 – tornado no jardim

15 setembro 2017

Carla Silva - desafio nº 124

O que fomos um dia
Sinto o corpo cansado, esgotado até.
Não sei bem, é como se não fosse realmente meu.
Durante as noites, dezenas de fantasmas rodeiam meus pensamentos, impedindo-me dormir.
Ali permanecem teimosamente agarrados aos meus sonhos como braços gigantescos.
Quando acordo, questiono-me se eles também assombrarão os teus sonhos. 
Quero acreditar que sim, que também sentes esta angústia sufocante.
Mesmo que de outra forma!
Preciso saber que também sentes minha ausência, ausência de tudo o que um dia fomos.
Carla Silva, 43 anos, Barbacena, Elvas
Desafio nº 124 ― és uma super-lula!

Frase: De forma sufocante, teus braços rodeiam meu corpo

Isabel Lopo - desafio nº 125

Quando partiste a minha vida desabou. Era como se tudo tivesse perdido as cores e os cheiros.
Um dia, alguma coisa amadureceu na minha alma e resolvi ir à luta. Arrumei as mágoas e abri de novo o meu coração.
A tormenta voltou. Soube-o logo que te ouvi bater à porta. Os meus sentidos dispararam, mas desta vez embrulhei o medo e deixei-te ao frio, à chuva e ao vento. Fazias parte das sombras do meu passado...
Isabel Lopo, 71 anos, Lisboa

Desafio nº 125 – tornado no jardim

14 setembro 2017

Susana Sofia Miranda Santos - desafio nº 114

Jesualdo era servente da construção civil. Como era o funcionário menos experiente, era escravizado pelos colegas, ostracizado pelo chefe, trabalhando exposto a condições climatéricas adversas.
Ele era psicólogo, mas nunca encontrara trabalho correspondente às habilitações e tinha que custear despesas pessoais. Assim, mesmo odiando aquele emprego, não tinha alternativa!
Mas, um dia, decidiu comprar um bilhete de lotaria e a sorte sorriu-lhe, ganhando o primeiro prémio.
Nunca mais iria trabalhar, viveria de férias eternamente!
O sofrimento enriquece.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto
Desafio nº 114 ― trocar as voltas ao ditado popular


Fernanda Botelho - desafio nº 120

Reencontrou o seu caminho. De tempestade em tempestade, o trilho aparecia e desaparecia diante dos seus olhos incrédulos e da alma alucinada pela pressa dos dias.
Corria, serpenteando o tempo demasiado curto, demasiado misterioso. Demasiado, demasiado… tempo
Perdera-se sem jamais se ter encontrado, seguia um caminho sinuoso entre neblinas e incertezas.
Agora, sentia estranhos murmúrios, ecos, sons no seu peito, na sua pele… algo lhe dizia que o caminho era aquele, saberia segui-lo até à próxima tempestade?
Fernanda Botelho, 58 anos, Sintra 
Desafio nº 120 ― reencontrar o caminho sem V nem F


Susana Sofia Miranda Santos - desafio RS nº 37

Dizer não? Não sei negar nada! 
Não sou capaz de camuflar sentimentos.
Não sei omitir informações da minha vida pessoal.
Nunca fui capaz de recusar satisfazer as vontades dos outros.
Sempre almejei o bem-estar de quem amo... a negação dificulta essa felicidade.
Negar é importante! 
Negar tem um papel educativo.
O não impõe limites parentais, regras pedagógicas.
Com um simples não definem-se castigos sem moléstia física.
Negar é uma arte; exige talento recusar algo, sem magoar alguém.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Desafio RS nº 32 – a arte de dizer não

Fernanda Botelho - desafio nº 119

Alfinetes e crisântemos
No silêncio da lapela de dona Luísa, o alfinete observa o corpo morto no caixão. Don Tenório nunca gostara de alfinetes, deixara escrito ― quando morresse queria crisântemos brancos a iluminar-lhe o caminho para o além, mas também margaridas, jarros, rosas, uma festa cintilante a enfeitar a estrada dos céus. O branco era a cor dos anjos e o vermelho a do diabo.
Solta-se o alfinete da lapela, cai sobre a mão do morto. Pingos de sangue… vermelho.
Fernanda Botelho, 58 anos, Sintra 

Desafio nº 119 ― crisântemo + alfinete

Susana Sofia Miranda Santos - desafio nº 119

A planta é belíssima, adoro teatro, por isso assenti imediatamente.
Depois, comentei o facto com outra colega que considera este convite nada ter de peculiar... somos amigos, partilhamos um interesse comum.
Hoje vamos ao teatro, mas devíamos ter optado pelo cinema, pois eu só faço filmes na cabeça!
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Desafio nº 119 ― crisântemo + alfinete

Célia Costa - desafio nº 125

Achou por bem deitar-se ali, inchado, a esticar a pança. Tinha acabado de arrasar o faval da Ti Hortense, a correr desalmado, de boca aberta. Aqui é que não, caneco!, gritei-lhe, levas-me o estendal com o bibe novo do miúdo e eu desfaço-te em ventanias! Fez-me frente, o importante, quis armar um pé-de-vento. Mas não foi preciso muito. Não estraguei o penteado, nem o pão caiu da cesta. Contentou-se com um chouriço e um pezinho de hortelã.
Célia Costa​, 45 anos, Malveira

Desafio nº 125 – tornado no jardim

Fernanda Botelho - desafio nº 122

Um mosquito no leite
Socorro, acudam-me, bzzzzzzz.
Não sei nadar, só sei picar, este sangue é muito branco, prefiro sangue vermelhinho com sabor a chicha, ai, só de pensar me dá ainda mais vontade de voar daqui para fora. Vejo através desta parede meia transparente um braço apetitoso, quero chegar-lhe, não consigo.
― Socorro!
― Mamã, mamã, tenho medo deste leite, ele fala.
― Ó filho, dá cá o copo, bebo eu, pronto!
(…)
― Socorro, tenho vozes na barriga.
― Eu avisei-te que o leite falava.
Fernanda Botelho, 58 anos, Sintra 

Desafio nº 122 ― um mosquito no leite

12 setembro 2017

Quita Miguel - desafio nº 125

Foge!
– Quer dizer que não… – Cristina deixou a frase a meio, seguindo com o olhar o pequeno tornado que perseguia a gata através do jardim.
– Foge! – gritou ela aflita, no momento em que o tornado acertou em cheio na pequena felina.
Não se sabia quem estava mais assustada, se a gata, se Cristina.
O animal olhava-a com a mesma expressão terna, como fizera centenas de vezes, a última alguns minutos atrás. Correram para os braços uma da outra.
Quita Miguel, 57 anos, Cascais
Desafio nº 125 – tornado no jardim

Faça aqui o download do conto «Sonho Esventrado» https://www.smashwords.com/books/view/595005

Paula Castanheira - desafio nº 125

Tinha tédio colado aos cabelos, a escorrer-me pela pele, os dias corriam presos a regras e nem sei se o cinzento seria cor demasiado colorida para descrever este arrastar de pés, habitava um jardim abandonado pela vida. Soube-o mais tarde!
Foste entrando de mansinho, fui deixando… de repente, qual tornado, espalhaste-te em mim, tal com espalhaste pela casa, a roupa, os sapatos e fizeste até esquecer-me de não rir!
Encaixei-me em ti assim, de pernas pró ar!
Paula Castanheira, 53 anos, Armona

Desafio nº 125 – tornado no jardim

Theo De Bakkere - desafio nº 125

O pai embriagado
Quando o pai embriagado saiu igual dum torrado imprevisível do jardim, o ambiente em casa tornou-se muito sinistro. Suas rajadas de delírio eram o precursor dum furacão destrutivo.
De repente o quarto pareceu demasiado pequeno e os presentes deviam pôr-se no seguro. Ai! Um vaso cristalino partiu-se em mil estilhaços. Porém, com o efeito inesperado que o furacão, amainou. Havia alívio geral, pois, comparando a violência de antes, este só fora uma tempestade num copo de água.
Theo De Bakkere, 65 anos, Antuérpia Bélgica

Desafio nº 125 – tornado no jardim